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Destaques

Programa Nacional de Abate Humanitário - Steps já mostra resultados em Santa Catarina

Medidas adotadas com os treinamentos contribuem para melhoria do bem-estar animal, qualidade dos produtos e redução de perdas

Mais de 300 profissionais das cadeias de bovinos, suínos e aves já foram treinados pela equipe de médicos veterinários e zootecnistas do Programa Steps, da WSPA, desde seu lançamento em julho deste ano. A região oeste de Santa Catarina (municípios de Concórdia, Chapecó, Seara, entre outros) foi a primeira a receber os profissionais, que já ministraram vinte e dois treinamentos.

O Steps tem o objetivo de construir, com o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) e associações das agroindústrias brasileiras, uma série de etapas para melhoria do manejo pré-abate e abate dos animais, nas diversas cadeias produtivas.

O treinamento é voltado para médicos veterinários e agentes de inspeção que realizam a fiscalização dos frigoríficos (em nível federal, estadual e municipal); proprietários, gerentes e demais profissionais envolvidos no controle de qualidade e manejo pré-abate dos animais nos frigoríficos. Segundo os fiscais agropecuários, os primeiros resultados já podem ser observados.

De acordo com a Gerente de Animais de Produção da WSPA, a médica veterinária Charli Ludtke, a previsão é finalizar 2009 com cerca de 800 profissionais treinados. Um universo que envolve 293 frigoríficos com inspeção estadual, federal e municipal (conforme o gráfico).

Ludtke explica que os treinamentos são feitos com grupos de 15 a 20 profissionais, que recebem informações sobre bem-estar animal, por meio de atividades teóricas e práticas, focando a realidade local e as mudanças necessárias para incorporar as boas práticas. “Nosso objetivo é minimizar o sofrimento desses animais melhorando o manejo através da implantação de um programa de bem-estar animal nos frigoríficos”, diz ela. A gerente explica que o Steps promove práticas que minimizam o estresse no manejo pré-abate, métodos de monitoramento de insensibilização mais eficazes, visando garantir que os animais estejam inconscientes no momento do abate. “Nossa preocupação está relacionada ao bem-estar dos animais e às questões éticas, que a cada dia são mais exigidas pela sociedade, que também quer saber como os animais foram tratados e criados e como foram abatidos”, comenta.

Benefícios

A gerente ressalta que o Steps contribui ainda para diminuir os riscos de fraturas, contusões e percentual de mortalidade, como também influencia na melhora da qualidade do produto final. “Provamos que esses cuidados, ao mesmo tempo em que reforçam o viés ético, contribuem para favorecer os aspectos econômicos. Os trabalhadores também são beneficiados ao incorporarem as boas práticas na rotina de trabalho, assim como estão mais aptos a identificar os pontos críticos de bem-estar e buscar soluções para resolvê-los”, afirma.

Após ser encerrado o treinamento nos municípios de Santa Catarina, o Programa Steps iniciará nova temporada de cursos nos estados do Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Para Antonio Augusto Silva, Diretor da WSPA Brasil, ao elevar os níveis de bem-estar dos animais de produção, levando em conta os padrões internacionais, o Brasil, que é um dos maiores produtores de animais do mundo, certamente influenciará de forma positiva as outras nações da América Latina que buscam aprimorar o manejo e o tratamento dos animais.

Realidade

O zootecnista José Rodolfo Panim Ciocca, integrante da equipe do Steps, explica que a realidade encontrada nos frigoríficos estaduais e municipais ainda é insuficiente em relação aos requisitos básicos de bem-estar animal. “O suprimento de água e espaço, por exemplo, é insuficiente para atender aos parâmetros de bem-estar. Por isso, focamos o treinamento nesses aspectos, principalmente porque não há necessidade de grandes investimentos. São mudanças operacionais e culturais”, explica.

Outro ponto citado por Ciocca sobre os frigoríficos estaduais e municipais diz respeito à ineficiência no processo de insensibilização dos animais. “Nos deparamos com situações onde a causa do problema é simplesmente a falta de informação em relação ao bem-estar no momento do abate dos animais. Isso vale também para alguns fabricantes de equipamentos de insensibilização, o que leva à produção de insensibilizadores que não atendem aos padrões de bem-estar animal”, diz ele.

O supervisor diz que as mudanças para os casos dos frigoríficos de pequeno porte ocorrem em longo prazo. Mas, nos frigoríficos em que já houve treinamento, percebe-se grande interesse, principalmente na etapa de insensibilização. “As mudanças são significativas na adequação dos parâmetros elétricos e aquisição de equipamentos adequados, para aqueles que ainda não possuíam”, comenta.

No caso dos frigoríficos federais a realidade é outra, pois a cobrança é maior, tanto por parte da indústria quanto do Sistema de Inspeção Federal. Isso porque esses estabelecimentos precisam estar adequados e habilitados, pois exportam para mercados mais exigentes em bem-estar animal. “Mesmo assim, nos deparamos com situações em que ainda há falta de monitoramento e aplicação de boas práticas de manejo pré-abate e abate. Mas, é importante destacar que a equipe do Steps avalia que os resultados alcançados com os treinamentos são animadores para incorporação das boas práticas em bem-estar animal”, conclui Ciocca.

Resultados

Luciana Debone, da inspeção municipal de pequenos frigoríficos em Chapecó-SC, diz que os benefícios do treinamento já podem ser notados. “Os funcionários compreendem melhor o comportamento dos animais e mudam a postura no manejo, diminuindo o estresse dos animais. Além disso, ficou mais fácil multiplicar as informações recebidas, uma vez que temos um bom material didático oferecido no curso (manuais e DVDs)". Debone também ressalta que com a maior conscientização dos proprietários de frigoríficos, aumentará também a demanda por equipamentos adequados, principalmente para insensibilizar os animais. “Alguns fabricantes se interessaram pelo curso e pela fabricação de equipamentos que atendam as boas práticas do bem-estar animal.

Para Luiz Eugênio Teixeira, médico veterinário que realiza a fiscalização em frigoríficos que possuem inspeção federal, a ação conjunta entre o MAPA e a WSPA veio em momento oportuno. “Estamos aplicando os conhecimentos adquiridos no treinamento e temos notícia de outras plantas que também já incorporaram as práticas recomendadas com sucesso”, disse. Teixeira lembra que o bem-estar animal é uma exigência de mercado. “Eu trabalho na ponta da cadeia, no abate, e aqui o impacto foi altamente positivo. Isso vai significar um diferencial para os animais, para o produto e também para os consumidores. Como médico veterinário, fico feliz com o caminho que se abre em relação ao bem-estar dos animais. É um caminho sem volta e que terá impactos importantes também na qualidade dos produtos, na saúde das pessoas e no mercado”, avaliou.

Mercado

A médica veterinária Eliana Bodanese, do frigorífico Aurora/suínos é responsável por receber a missão da União Europeia que virá auditar plantas de suínos. Vale lembrar que a última vinda da missão, em 2002, não foi auspiciosa para o Brasil, pois não se conseguiu abrir novos mercados. Para Bodanese, o Brasil está mais preparado para avançar no mercado de suínos. “Estamos bem melhores do que em 2002. Mas ainda temos muito que melhorar, principalmente porque as exigências crescem a cada dia”, avalia. Segundo ela, o cenário econômico não favorece grandes investimentos, mas, a despeito das restrições financeiras, com informação, boa vontade e mudança de comportamento, é possível avançar em relação às boas práticas para o bem-estar animal. “O aprendizado que tivemos com a equipe do Steps foi extremamente oportuno. Ficou reforçada a necessidade de conscientização sobre a necessária qualidade ética agregada ao nosso produto, e não apenas os aspectos técnico-produtivos do processo. Essa é também a condição para atingir mercados melhores e mais exigentes em termos de bem-estar animal”, afirma.

Legislação

A produção animal terá mais um avanço no quesito de bem-estar. Trata-se do novo RIISPOA (Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal). O Decreto-lei de 1952, que rege o sistema de inspeção nos frigoríficos brasileiros, está em processo de alteração e será submetido à consulta pública antes de entrar em vigor. Uma novidade da revisão do RIISPOA está em exigir que as boas práticas voltadas ao bem-estar animal sejam incorporadas no processo produtivo desde o embarque, passando pelo transporte, até o abate. Além disso, é a primeira vez que se estabelecem critérios de bem-estar para peixes desde a captura até o transporte e o abate. O documento a ser apresentado resulta de uma ação conjunta de fiscais agropecuários, pesquisadores, professores e da WSPA, em parceria com o MAPA, para inserir os benefícios relacionados ao bem-estar animal.

Steps - Princípios da qualidade ética no manejo pré-abate

  • Métodos de manejo pré-abate e instalações que reduzam o estresse;
  • Equipe treinada e capacitada, comprometida, atenta e cuidadosa, no manejo dos animais;
  • Equipamentos apropriados, devidamente ajustados à espécie e situação a serem utilizados e com manutenção periódica;
  • Processo eficaz de insensibilização que induza à imediata perda da consciência e sensibilidade, de modo que não haja sofrimento no abate do animal.

 

 

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