
| "Como educadores temos um compromisso com a cidadania planetária. Portanto, com todas as formas de vida." |
"A cidadania planetária vem de dentro, do coração e da mente, da ligação profunda com a Mãe-Terra". A frase do professor Moacir Gadotti abre o texto do Projeto Pedagógico da Escola da Natureza. Ela também reflete a trilha escolhida pela equipe multidisciplinar, composta por 20 profissionais, que tem o compromisso de mudar corações e mentes para construir a tal da cidadania planetária. À frente do time, está a professora Lêda Bhadra Bevilacqua, adepta da Ecopedagogia e a mais recente entusiasta da Educação Humanitária. Nesta entrevista, Bevilacqua fala dos resultados do Programa "Escola é o Bicho", desenvolvido em parceria com a Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA), e dos espaços conquistados no contexto da educação humanitária. OLA: A Lei 9.795/99 instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental. Considerando os abusos e maus-tratos praticados contra os animais, frequentemente noticiados pela mídia, a senhora diria que há uma lacuna no trabalho dos educadores no que concerne à proteção a todas as formas de vida? LB: Certamente. No quesito fauna, o foco dos trabalhos dos educadores ambientais se dá, particularmente, no contexto da conservação de espécies. Essa lacuna deve-se ao fato de não se ter a consciência de que o ser humano é parte do ambiente, e não o centro dele. Nas pautas da educação ambiental não se discute a relação do ser humano com outras formas de vida, e sim a necessidade de se preservar espécies, o que, de forma nenhuma garante uma relação humanitária com a vida. Não se discute, por exemplo, o abandono de animais domésticos nas ruas, nem a cruel utilização de animais em circos, o que caracteriza um descompasso com a verdadeira formação do cidadão crítico e consciente do seu papel no ambiente e no mundo. Precisamos pensar que, como educadores, temos um compromisso com a cidadania planetária. Portanto, com todas as formas de vida. Assim, é fundamental que busquemos estratégias para subsidiar uma educação mais complexa e sistêmica. OLA: Foi por esse motivo que a Escola da Natureza, tradicionalmente um reduto da educação ambiental no Distrito Federal, incorporou a educação humanitária e a educação em bem-estar animal no Projeto Político Pedagógico da instituição? LB: Sim, a proposta de parceria com a WSPA chegou exatamente no momento em que discutíamos a reformulação da nossa Proposta Pedagógica. Veio, portanto, contribuir para que pudéssemos ampliar o alcance das nossas ações e os conceitos com os quais temos trabalhado ao longo dos 13 anos de existência da Escola da Natureza. Com a chegada do Programa “Escola é o Bicho”, incorporamos efetivamente a educação humanitária no contexto do nosso fazer, num diálogo permanente com a educação ambiental e demais linhas de ação da escola. Vale ressaltar que a escola desempenha uma função social importantíssima. Nesse sentido, percebemos também que cada vez mais a sociedade demanda uma formação voltada para quebrar o ciclo da violência, que causa a insustentabilidade planetária. Uma violência experimentada entre os seres humanos e desses em relação às outras formas de vida. Assim, este é mais um espaço que buscamos ocupar, por meio dos princípios e valores da educação ambiental e agora da educação humanitária. OLA: Que mudanças já podem ser percebidas desde o início do programa “Escola é o Bicho”, de educação humanitária, desenvolvido em parceria com a WSPA? LB: A primeira mudança visível foi na própria equipe da Escola da Natureza, que pode vislumbrar um enfoque mais aprofundado na formação dos educadores. Na medida em que realizamos ações com as escolas participantes do Programa, também passamos a ter registros de mudanças importantes. São inúmeros os relatos de transformações nas relações interpessoais, nos ambientes de trabalho e em relação a um novo olhar para o mundo como um todo. São depoimentos de professores, gestores e pais de alunos sobre a mudança na atitude das crianças. A redução da violência entre os alunos atendidos pelo Programa e a contribuição que o mesmo traz para uma cultura de paz e harmonia para todo o ambiente escolar é inconteste. OLA: Em novembro deste ano, a Secretaria de Educação e o Instituto Brasília Ambiental realizam o V Encontro de Educadores Ambientais, em parceria com outras instituições governamentais e não governamentais. Pela primeira vez o tema educação humanitária fará parte dos debates. De que forma se dará essa inclusão? LB: A idéia é trazer para o debate temas voltados à formação de um ideário de sujeito ecológico, ou seja, o ser integralmente comprometido com a vida. Não somente a formação do cidadão crítico e ativo ecologicamente, mas a relação desse cidadão com outros seres humanos e com os animais. Trataremos de temas importantíssimos, que normalmente ficam relegados no âmbito dos discursos ambientais, como educação integral, educação biocêntrica, ecologia profunda e mais especificamente a educação humanitária. Será, sem dúvida, uma grande oportunidade para ampliarmos o escopo das ações e estratégias no contexto do ensino formal e não-formal. OLA: A Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados foi palco de embates sobre o PL 7291/06, que proíbe o uso de animais em espetáculos circenses. Na ocasião, a imprensa destacou a participação ativa de alunos do Distrito Federal. Que lições ficaram desse episódio? LB: O que mais nos emocionou foi a consciência das crianças e dos jovens evidenciada nesse episódio. Foi um momento inesquecível onde pudemos testemunhar o processo de educação desde sua base. A partir de uma proposta surgida no curso de educação humanitária, professores e alunos se envolveram em pesquisas e reflexões sobre a prática do uso de animais em entretenimento. Daí em diante foi um exercício de absoluta cidadania - como público consumidor de informação e como pessoas que fazem escolhas. As crianças deram uma verdadeira lição de mobilização social e cidadã. Tivemos a grata satisfação de ver os alunos como protagonistas de ações que até o momento só estavam restritas ao mundo dos adultos, o que vem ressaltar a contribuição desse processo também para o Programa de Educação Integral, proposto pelo Governo do Distrito Federal. OLA: Os educadores ambientais estão se mobilizando para os debates da Conferência Nacional de Educação, que será realizada em abril de 2010. Como integrante da Comissão do Distrito Federal, a senhora pretende levar alguma proposta relativa à educação humanitária? LB: Certamente. No V Encontro de Educadores Ambientais pretendemos escrever uma “Carta de Responsabilidades pela Educação para a Sustentabilidade”. Esse documento será destinado ao Governador e ao Secretário de Educação do Distrito Federal. Dentre as propostas apresentadas, está a formulação de políticas educacionais voltadas à prática da educação ambiental e humanitária em todas as escolas públicas do DF, como parte integrante do currículo de educação básica. Uma vez assumido no contexto do Distrito Federal, acreditamos que o documento possa ser levado como contribuição para o Fórum Nacional. OLA: Na Semana Mundial dos Animais, a Escola da Natureza realizou mais um evento que reuniu cerca de 500 alunos e professores do Distrito Federal, em torno do tema bem-estar animal. Que aspectos a senhora destaca da produção deste ano? LB: A alegria de todos os participantes, a beleza no rosto das crianças e a performance das apresentações temáticas foram os pontos altos do evento. Um momento de concretizar toda uma construção feita ao longo do ano, seja em exposições de trabalhos realizados pelas crianças, como também nas músicas e textos produzidos. O que fica evidente é que a interação com os animais e com a educação humanitária modifica as pessoas. O evento em si foi muito trabalhoso, envolvendo toda a nossa equipe, e foi exatamente esse envolvimento que nos proporcionou estreitar laços e mostrou que a educação humanitária pode ser a ponte para a construção de tantos valores e conquistas em direção a um mundo melhor, mais justo e equilibrado. Ao final do evento, os participantes realizaram um grande abraço simbólico na Escola da Natureza. Entre as frases pronunciadas, num só coro, havia esta: “agradecemos e reverenciamos a vida e a paz entre todos os seres que habitam o universo”. É o que todos nós almejamos como educadores. Posso dizer que foi emocionante. OLA: Qual a trilha da educação que vai nos ajudar a construir um mundo onde o respeito a todas as formas de vida esteja entre os mandamentos do bem-viver? LB: Com toda a certeza, a trilha do conhecimento aliado à sensibilização e à formulação de políticas públicas específicas. Neste sentido, o Programa “Escola é o Bicho” se encarrega de demarcar essa trilha quando propõe um Curso de Educação Humanitária, quando mobiliza as comunidades escolares para a formação de Grupos de Bem Estar Animal, quando promove momentos de exposição dos resultados alcançados, quando propõe ações em conjunto com programas educacionais de redução da violência e de cultura pela paz. |