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Destaques
Artista plástico que fez "instalação" utilizando cão é convidado a expor em Bienal
O artista costa-ricense Guillermo Vargas, conhecido como Habacuc, que provocou uma onda de protestos em todo o mundo por maltratar um cão em uma galeria de arte na Nicarágua, voltou à cena. Habacuc foi convidado para participar da Bienal Centroamericana de Arte, que ocorrerá em Tegucigalpa, Honduras, em novembro de 2008. Preso a uma corda, o animal foi privado de receber alimento e água, sob o olhar inerte do público que visitava a exposição.
Nas paredes da galeria de arte, um mosaico construído com rações para cães emoldurava a performance cruel e criminosa do “artista”. A explicação dada para o que ele denomina arte, é de que sua obra prestava homenagem ao nicaragüense Natividad Canda, morto após ser atacado por dois cães da raça Rottweiler.
Para além da inércia ou da insensibilidade em relação ao sofrimento do animal, ou mesmo ao valor da vida, parte do mundo reagiu via petições que circularam na rede mundial de computadores. A Sociedade Mundial de Proteção Animal (World Society for the Protection of Animals – WSPA) divulgou um comunicado, no qual classifica como um ato de crueldade inaceitável. Mas Habacuc saiu ileso do caso, uma vez que na Nicarágua não há lei punindo a crueldade contra animais.
A WSPA continua buscando, por meio de suas afiliadas na Nicarágua e em Honduras, outras formas de repreensão à Guillermo Vargas. A instituição entrou em contato com o Ministério da Cultura e Arte do país para pedir que Vargas seja proibido de representar a Costa Rica na Bienal. Em resposta, o Ministério informou que ele participaria com “outra obra”, aparentemente sem animais. O governo argumentou ainda, que por ser um convite particular, não haveria como interferir. Além disso, está prevista uma reunião com os Empresarios por el Arte, representantes do artista, para discutir a participação dele no evento em Honduras.
Organizações de defesa animal asseguram que estarão vigilantes, durante a bienal, para garantir que não sejam cometidos novos atos de maus-tratos a animais.
Confira no quadro as considerações da Sociedade Mundial de Proteção Animal sobre esse caso.
- Maltratar animais, independentemente do motivo, é um ato de covardia e condenado por legislações de diversos países.
- Assumindo que a intenção do artista seria realizar uma crítica à sociedade, não é ético recriar o ato de crueldade que se pretende condenar. Em nenhuma hipótese se justificam os maus-tratos a animais.
- Já foi cientificamente demonstrado que os animais têm capacidade de sofrer e sentir dor. E isso independe do contexto em que eles se encontrem.
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A Costa Rica também é aqui
Artista brasileiro causa polêmica ao criar "obra de arte" a partir de cão eutanasiado em Recife
O cenário da Arte Contemporânea brasileira também produziu seu Habacuc. Trata-se do pernambucano Rodrigo Braga, que entre outras obras produziu “Fantasia de Compensação”, em 2004.
Em seu site, Braga explica o processo de composição da tal Fantasia, feita nada mais nada menos do que com partes de um cão “manipulado cirurgicamente”. No texto “Dos bastidores de um auto-retrato”, exibido no site, ele registra os passos da sua contemporânea arte, repleta de sangue e descaso pela ética.
“Não sei ser do tipo de artista que trabalha com o que dispõe ou que parte de uma matéria ou escolhe um suporte para executar um trabalho. Em geral, a idéia é quem pede o meio, o material, o suporte ou a técnica que vou utilizar e, então, me debruço sobre as necessidades e tento conseguir a todo custo”, diz o texto. Para satisfazer a sua “idéia”, Braga decidiu fazer uso da tecnologia de manipulação de imagem digital, para “gerar não o surrealismo típico de uma montagem fotográfica mas, sim, ‘fabricar’ em ambiente gráfico digital uma ‘realidade’ que, de qualquer forma, pudesse ter ocorrido em verdade, pela habilidade manual humana”. À tecnologia, o criador da Fantasia adicionou sua catarse, uma vez que, segundo ele, a obra é um auto-retrato que envolve questões psicológicas que lhes são caras.
Na sua catarse, Braga contou com a ajuda de “médicos veterinários particulares”, Universidades Rural e Federal e o Centro de Vigilância Ambiental (CVA) da Prefeitura do Recife. De acordo com ele, após receber as autorizações necessárias, “escolheu a dedo um animal que seria eutanasiado no dia seguinte (como parte de um procedimento habitual)” e lhe seria entregue para a realização do trabalho.
De posse da carcaça do animal, Rodrigo Braga deu início, com a ajuda de um veterinário cirurgião, à Fantasia de fundir-se com um Rottweiler, de forma tal a deixar as partes da cabeça desse cão costuradas sobre o seu rosto.
A nossa reportagem entrou em contato com o CVA de Recife, para saber se o órgão de fato concedeu a autorização para que o artista realizasse o trabalho e, se deu, com base em que instrumentos legais. Até o fechamento desta matéria o órgão não havia se pronunciado.
Reação
Como não podia deixar de ser, a “obra de arte” do brasileiro provocou reações negativas junto ao movimento de proteção animal e à sociedade em geral.
A presidente do Núcleo de Educação Ambiental Francisco de Assis (NEAFA), Ângela Seabra, além de encaminhar denúncias para alguns sites, como o da Polícia Federal, fez consulta à OAB de Alagoas para identificar a possibilidade de formalizar uma representação junto ao Ministério Público.
Drª Adriana Alves, da OAB, informou, em entrevista ao OLA, a decisão tomada sobre a consulta. Segundo ela, como esse episódio está vinculado ao Estado de Pernambuco, a seccional de Alagoas recepcionou a consulta/denúncia e está encaminhando expediente à OAB/PE, solicitando providências cabíveis. Da mesma forma, a OAB de Alagoas informará a instância nacional da entidade. “É um verdadeiro absurdo o que este rapaz fez com o cão. Não importa se estava morto. Este episódio é uma apologia à violência contra princípios e valores que são fundamentais no conjunto da sociedade”, afirmou.
Para Alessandro Valério, médico veterinário e responsável técnico do NEAFA, “assim como nós humanos temos o direito à dignidade e respeito à imagem em vida e pós-morte, os animais também o tem. Não há dúvida de que a exposição do animal na chamada obra do artista em questão fere este princípio”, avalia.
Em resposta às críticas, Rodrigo Braga divulgou nota no seu site, na qual reafirma a legalidade dos procedimentos adotados para composição da sua arte. Braga reitera também o seu respeito “em relação às questões éticas problematizadas pela sua obra”.
Autoral
À reportagem do OLA, Braga revelou surpresa pela repercussão da obra tanto tempo depois. “Este trabalho foi exposto em várias cidades brasileiras e até no exterior. Há diversas publicações falando sobre ele, teses de doutorado, monografias e até então não havia reações de protesto como as que ocorrem hoje”, disse. O artista atribui os protestos atuais aos e-mails que circularam na rede mundial de computadores sobre a sua obra. “Para mim, este é o problema, pois as informações que circulam não vão por inteiro, as pessoas não têm o conjunto da obra, sua concepção”, avalia.
Questionado pela reportagem sobre as questões éticas levantadas por várias pessoas, Rodrigo Braga explica que “o que fica marcado é o que a pessoa quer ver no trabalho. A obra pode ser lida pelo lado da fotografia, da técnica e diversos outros elementos, como também pela ideologia”, disse. Quando perguntado se esta obra queria ter o caráter de provocação ou se o que falava alto era apenas a sua catarse pessoal, Braga afirmou que a motivação é muito mais de ordem pessoal. “Eu tinha a noção que o trabalho é potencialmente polêmico, mas não quis me privar da função do impacto que iria causar e abrir mão da minha catarse”, afirma.
Rodrigo Braga não aceita a comparação com o artista costa-ricense Habacuc. “Sou um admirador da sua obra, mas nossos propósitos foram diferentes, embora nós dois tenhamos usado um cachorro na composição do projeto. Para o Habacuc há uma conotação política; já o meu trabalho é autoral”, conclui.
Para Maria Padilha, presidente da Associação Amigos Defensores dos Animais e do Meio Ambiente (AADAMA), é importante questionar se o Centro de Vigilância Sanitária poderia doar o animal, ainda que estivesse morto, para o artista. A dirigente destaca também o aspecto ético da participação do médico veterinário, que não teve o nome revelado pelo artista.
Padilha, explica que entrou em contato com o artista para questionar os aspectos éticos e legais do processo de criação da sua obra. Segundo ela, ele informou que já recebeu inúmeros e-mails de protesto, mas, em sua opinião, sua arte contribui para o debate sobre o respeito aos animais. Filho de pais biólogos, Rodrigo Braga garante que foi criado ouvindo tudo sobre o tema.
Parafraseando a letra da canção do cantor e compositor Beto Guedes, o artista da “Fantasia de Compensação” disse saber de cor a lição; talvez agora, só lhe reste aprender.
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